21:21
Volto para a solidão da minha casa. vazia.
Alimento os peixes. solidão coletiva de um aquário.
Em cartaz hoje: O quanto a vida me deprime.
Com a mesma vontade de quem acorda para trabalhar em uma segunda-feira de carnaval
Sento-me no sofá: já estou online.
Sempre online.
Sofá: objeto decorativo. conforto e comodidade em 12x sem juros.
Digo que fui ao parque correr esta tarde; mentira.
Que está tudo bem; mentira
Pergunto que fez do dia; pouco importa.
Digo ter ido ao shopping e comprado coisas das quais nunca precisei; mentira.
Você me acha atraente; pouco importa.
Nunca desenvolveremos nenhum tipo de romance efetivamente;
Nos divertimos com as cantadas e as piadas de mau gosto; mentira
off-line: liberdade ao alcance de um botão.
Consumo meus dias como quem consome um iogurte vencido.
Nojo. seguido por arrependimento. seguido por medo de passar mal.
Neste momento recebo uma ligação que deveria servir de consolo.
Consolo: genitália masculina de borracha sempre disposta.
Sento no sofá com a mesma cara de bunda de outrora.
O Johnny Cash continua tocando.
Essa porra de telefone que não cala a boca!
Dias que as horas são intermináveis.
Interminável: o maior pé no saco.
“Os melhores vinhos também viram vinagre.” é o melhor que posso pensar agora.
Um sentimento de abandono me toma.
Não se parece em nada com término de relacionamento, ausência de pessoa querida ou morte próxima.
Abandono: o coco do cavalo do bandido.
Na vitrola imaginária um tango argentino emenda o soneto.
Ensaios sobre o colchão.
Dormir não é remédio, é mal do século.
Solidão: 9 punhais afiados.
