Contos de João e Maria (C.J.M.)
Maria, que era companheira de quarto de Glória, que era cunhada de Antônio, que jogava futebol aos sábados com um tal de Edvander.
Esse tal de Edvander, que torcia p’ro corinthians, namorou por um verão e meio a balconista do Clube BoltBall, onde ele jogava futebol aos sábados.
A balconista que por sua vez, chamava-se Raquel, e era branca como pasta de dente, era apaixonada por Antônio.
Antônio que já era casado a um par de tempos e por sua mulher matara e morrera, tinha um primo de nome João, que não acreditava dessa historia de sentimentos, cumplicidade, e para sempre.
João que passara as férias no litoral e conhecera Glória, que estava amando um tal de Edvander.
Avistara Maria sentada, olhando o movimento pitoresco do local.
Maria que por sua vez já conhecia todo esse “blábláblá” de amor, primeira vista e para sempre, expunha seu colo como produto em liquidação.
Dos pedestres e ciclistas, motociclistas e motoristas que passavam pela tarde de Maria, ela nem os vira passar, olhara para o nada.
Como se fora 1 minuto contado em relógio de pulso, ela virou-se para a direita e cruzou os olhos com os olhos de João.
João que continuava a olhar Maria agora a fizera cruzar as pernas, que o fez cruzar os braços, e já se mordiam os lábios, e se cruzavam as línguas, que já não se comunicavam por palavras, já enlaçavam as cinturas e os ombros. A respiração ritmava, e as mãos que apertavam, e os sentidos que faltavam e os desejos que afloravam, a tarde que caia.
Os dois que se cruzaram só de se olharem, agora disfarçavam a tensão, a identificação, e voltavam seu olhar novamente para o nada.
Os olhos que ainda se olhavam mesmo estando de costas, dançavam como damas acompanhadas em bailes de classe.
Maria que agora não pensa mais em ilusões sofridas, fechara um pouco o decote para parecer moça fina.
João que só pensava no que pensar, acabara por não pensar em nada.
João a queria, isso já se sabia
Maria se escondia, disfarçava o rubro da face
João se atrevia,
Maria sorria...
Maria sorria!
Ah! João, que euforia.
João assentou-se ao lado, como par de vaso florido
Maria o olhara, não o deixara perceber
João ensaiava, frases prontas que lia em livros
Maria o olhara e agora não pudera mais voltar o rosto
João também estava a olhar
Como galope desenfreado de quem foge do perigo
João pegara em sua mão.
Maria sentia o calor, queimava em brisa.
O calor não emanava dos tecidos grudados, das mãos suadas, coladas pelo sol. Não era a pressão massas contra massas. Não era a importância mínima que o universo exercia ali. Eram seus dedos laçados, enlaçados e entrelaçados nas mãos de outrem que nem ao menos se apresentara.
Sentiu-se menina, sentiu-se mulher, sentiu-se dama, vadia, sentiu desejo.
Ele só pegara em sua mão, mas que tolice...
Tolice era a repressão deste delírio, sentiu-se líder de 84.
Sentiu-se livre, destemida de conceitos sobre viver.
Maria não acredita em amor, flores, e dias seguintes...
Sentiu-se provido, movido, vivido. Sentiu-se maduro pra nada dizer.
Sentado em silêncio, olhando sem medo. Sentiu-se pleno
João não acredita em amor, cartões, e bem-me-queres...
Ali, apenas sentados na rua já quase escura,
Sem pretensões amorosas, futuros perfeitos, e sonhos possíveis
Apenas sentados. Calados. Selados como cartas
Na tarde que já estava se despedindo, em segundos que jamais se repetiriam.
Ela era só Maria, ele sempre fora só João. O momento os pertencia, mas eles... Eles eram livres.
Não eram conhecidos, não eram amigos, não eram amantes, não necessitavam ser.
Não acreditavam em compromissos, em denominações, em posses, e não necessitavam crer.
Eles que nem sempre foram, para si, suficientes
Agora condizentes, reviravolteantes, estavam. Sentados inertes. Com as cernes ausentes.
Se permitiam não ser, não crer, não ter, não entender, não saber... Apenas estar.
Versando as valsas conjuntas, cantavam para si as canções que os rádios copiosamente insistiam em pulsar sem pressa.
