Isabela (I)
Nem acordo e Isabela já está na rua.
Vejo meia sombra da janela
Lá vai eu, mais ela, pra escola da vida sem futuro
Ela na rua dela, eu na minha via escura...
Estranho é ver Isabela carregar seu saco de pão
Estranho é ver como ela corre entre as árvores
Corre lá Isabela – grito eu em pensamento
Se eu pudesse dizer, eu até diria
Mas as vezes Isabela me assusta
Impetuosa, anda leve, quase não tem pé
Da minha janela não consigo ver Isabela
Entre nós tem uma arvore
Se não fosse eu, crente da impiedade da natureza
Mandava eu mais eu mesmo arranca essa palmeira
Hoje vi Isabela sentada num muro,
Nem me viu, nunca me vê...
Não devia contar, se ela descobre manda me matar, mas...
Isabela tem cara de anjo
Anjo mesmo eu nunca vi
Mas em igreja eu sempre vou
Fico olhando p’ro céu...
Céu de igreja também tem estrela
Fico olhando pra imagem pintada de Isabela
É claro que não é ela, mas já disse...
Isabela tem cara de anjo... E corpo de demônio
Me sobe um ar quente, que penso nas suas saias, no cheiro dos seus cabelos
Não devia ter dito nada! Devia ser como Isabela...
Sempre calada, é do tipo que nunca que vai perder a língua
Talvez ela nem conheça as palavras
Ela lá risonha com um livro de historia contada
Já tentei chegar bem perto pra ler o cabeçalho
Nunca que consigo.
Isabela não anda por aí cheia de livro, é só um.
Nem sei se já foi na escola
Ela deve ter nascido já sabida das idéias
Deve fazer gosto de escritas de amor
Certa vez fiz um poema pra Isabela
Mas não tive coragem de ler
Audácia minha seria entregar
Era capaz de pela primeira vez ela abrir a boca,
E dali sair fogo pra queimar essas minas caraminholas
Foi assim, prometi pra Isabela que nunca mais escreveria
Já é noite, Isabela vai dormir com a lua
Fico eu na janela, vendo a sombra da palmeira, pensando que é ela
Qualquer dia encho a garganta de som, e pergunto o nome dela
Pergunto se gosta de vermelho, se quer dar um passeio,
Se pode me dar algumas palavras em confiança de meu respeito,
Se pode me dizer onde mora, se namorar, se o pai deixa namorar
Bem sei que é pessoa particular, que não é de conhecimento nem meu, nem dela
Que se fosse normal ser Isabela, eu não pensava nela pra casar
Pra lá de depois da palmeira construir um lar,
Assim com eu sempre quis fazer, jardim e cozinha, sala e quarto.
Que no amanhecer penso eu que seria feliz pra sempre
Não, sei que foi besteira pensar assim
Que fui eu que inverti, eu que nasci errado,
Que fui eu o bichado assim que pisei aqui
Agora tenho que fazer a vida, assim como ela fez de mim
Seria bom se Isabela existisse, e que a solidão de mim partisse
Mas a esperança assim me mostra, morta
Como pedra de raio que vai e nunca mais volta.
Heloisa Alvarez

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